"O 25 de Abril, “essa revolução miserável…” - André Ventura
"Este artigo não é sobre o debate que tive com André Ventura, mas sobre ele ter existido, eu o ter proposto e realizado, e sobre as críticas vindas sobretudo de alguma esquerda de que ele nunca deveria ter existido. Deixo de parte os que aproveitaram esta controvérsia para fazer alguns ajustes de contas muito previsíveis, mas eu sei bem que quem anda à chuva molha-se.
Vamos ao tema principal. Este tipo de discussões não é novo e tudo aponta para que fazer de conta que nada se está a passar dá sempre torto. Discussões como esta ocorreram nos anos 30, durante a ascensão do fascismo e do nazismo, e repetiram-se em vários países como, por exemplo, França, face ao crescimento da Front National. O primeiro ponto para que chamo a atenção é que, em todos os casos, a questão de confrontar directamente os adversários só tem sentido quando se está numa fase de crescimento de partidos e movimentos hostis à democracia e não quando já tomaram o poder. Nessa altura, a resposta a dar é de outra natureza.
Hoje, em Portugal, o Chega é o segundo partido parlamentar, está presente em várias autarquias, em várias instituições, e o seu crescimento tem sido muito rápido. Está no centro da vida política mais do que o PS, já para não falar da pequena esquerda, e mais do que a AD, que governa o país e que precisa do Chega, mais do que o contrário. O Chega controla grande parte da narrativa política, é particularmente influente em toda a direita, define a programação do Governo em áreas cruciais como a imigração, marca a agenda comunicacional através de uma combinação de provocação e espectáculo que dá audiências, e usa como ninguém as redes sociais, a cloaca política dos nossos dias com enorme potencial de circulação de posições radicais e de mentiras. Quanto mais estiver sozinho em todos estes terrenos, mais se fortalece, e, se nada se fizer, já se sabe que o seu “estilo” não os prejudica. Cem Polígrafos que existam não impedem a circulação de mentiras, porque lhes falta a combinação de pathos e razão que provoca empatia, antipatia ou simpatia.
O único sítio onde o Chega é confrontado, muitas vezes debilmente, é no Parlamento. Aí, gestos exemplares como a saída dos antigos deputados da Constituinte, ou uma rara atitude da mesa como a que tomou Teresa Morais, têm um grande papel simbólico e acabam por ser eficazes. Nos EUA, face a Trump, onde o mesmo problema se coloca, são atitudes como a da bispa anglicana de Washington que fazem mossa, e não a conversa mole dos democratas.
Um dos aspectos que sinto nos contactos de rua, que aumentaram muito depois do debate, é que eles têm uma componente emotiva pouco comum. Percebe-se então aquilo que uma certa esquerda não compreende, as pessoas têm um défice da representação, de identificação, contra o Chega.
Esquece-se que, para muitas pessoas, o crescimento do Chega não é apenas visível nos noticiários, mas nos locais de emprego, nos vizinhos e amigos e… em casa.
É por isso que é um mau serviço para a democracia a fuga ao confronto onde ele é mais eficaz, em si mesmo “espectacular” no bom e mau sentido da palavra, cara a cara. Também por isso, fazer esse confronto, não estou a dizer se bem ou mal, é superar o medo, o comodismo e o snobismo. Existe medo porque o que se confronta é um discurso com muitos elementos de violência verbal, que se sabe que vai mais além do que as palavras, como se vê nos comentários com ameaças nas redes sociais. Esse medo também se revela em não se querer “meter as mãos na massa”, para não se ser insultado e que funciona como comodismo. Para que é que eu vou ter a minha “imagem” sujeita à lama se posso ficar numa qualquer altura académica sendo contra o Chega, mas na minha redoma educada, lá longe nas nuvens? Reconheço que não é fácil, em particular para as mulheres, serem insultadas de modo vil e soez nas redes sociais, mas é um preço inevitável no confronto com a ecologia destes movimentos assentes na violência e na crueldade.
Mas há também nalguma esquerda um comodismo que serve uma forma de snobismo elitista. É aí que entra a frase de Shaw sobre os porcos que diz que lutar contra eles é “sujar-se”, porque eles vivem numa pocilga e não há maneira de evitar a porcaria. Mais vale estar sossegado em casa, metido numa redoma e esperar que lá fora as coisas melhorem, ou que haja um ambiente mais “civilizado”, para então discutir os “malefícios do tabaco”, como na peça de Tchékhov. Uma das coisas em que a chantagem do Chega funciona é por essa via, eles fazem a “massa” tão tóxica que ninguém quer “meter as mãos na massa”. Só que ela continua a aumentar e os riscos para a democracia manifestam-se, entre outras coisas, em chamar ao 25 de Abril a “revolução miserável”, coisa que passou bastante despercebida porque o espectáculo esconde o relevante.
Depois, há outro factor que implica correr o risco da “sujidade”, é que os tempos oferecem coisas novas aos antidemocratas. Oferecem uma nova ecologia comunicacional, novos mecanismos que fazem o upgrade à mentira, e uma sociedade onde os caminhos da exclusão são diferentes do passado, e geram violência, crueldade e solidão.
Face a eles não se pode ficar em casa, cómodo e confortável. É eficaz? Eles dizem que não, que só favorecem o inimigo.
Olhem que não, olhem que não."
José Pacheco Pereira
O autor é colunista do Público
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